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Motivação na pesquisa: Uma breve concepção

por Marcos Bila, em 21.08.17

Introdução

Este blog foi criado com o intuito de publicar trabalhos de pesquisas que vou fazendo no ambito da minha formação e outros que fasso por prazer (como este artigo), para tal, cada uma das pesquisas é feita em função duma determinada motivação. O objectivo deste artigo é debruçar sobre a Motivação.

Motivação

Murray (1971) explica que é a motivação que influencia o uso que uma pessoa dá às suas capacidades… o que uma pessoa quer, o que poderá influenciá-la, o que é importante para ela. Se prestarmos atenção nas nossas vidas fora da academia notaremos que a motivação é um aspecto que está presente no cotidiano das pessoas. Ainda podemos constatar que essa motivação (ou desmotivação) influencia nossos pensamentos e comportamentos.

“motivação humana, falamos prontamente de incentivos. Uma forma de caracterizar a motivação humana, que nos parece plausível, é discuti-la em termos de metas ou objetivos" - Cofer (1980)

A motivação pode ser considerada como um fator fundamental no processo de aprendizagem dos indivíduos. Dependendo do grau de motivação, o estudante ou o pesquisador retém um maior ou menor número de informações que acumula. – Murray destaca que a motivação é aspecto determinante no processo de utilização dessas informações recebidas ou coletadas. A mesma relevância da motivação ocorre no processo de solução de problemas e na expressão da criatividade do indivíduo. Assim, A emoção como é um factor intrínseco desse processo, uma vez que o pesquisador é indivíduo dotado de sentimentos e emoções.

Na Academia

O pesquisador precisa descobrir quem é ele mesmo, qual é o objeto com o qual gosta de trabalhar, qual é a motivação da sua pergunta, qual é a importância da resposta que ele busca.

Baptista afirma que só acredita na pesquisa realizada por sujeitos implicados emocionalmente. A autora defende também que há um estreito vínculo entre a produção da pesquisa e o ato de emocionar-se, uma vez que a subjetividade do pesquisador está presente ao longo de todo o processo

Um indivíduo motivado consegue trabalhar melhor em prol do objetivo que deseja alcançar, isto é, ao se motivar, a pessoa ativa o seu cérebro para buscar soluções. Segundo Nicolau, é necessário exercitar o cérebro por meio da inteligência emocional: A inteligência emocional requer que aprendamos a reconhecer e valorizar os sentimentos.

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Como se dar bem em Moçambique

por Marcos Bila, em 28.04.17

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 Como se dar bem em Moçambique

Não seja negro, castanho. Não seja mulher, não seja criança, não seja pobre, não seja um doente mental, não seja um atrazado na educação, particularmente nesses campos não práticos tipo LITERATURA, as artes, história ou filosofia, Não pratique outra religião para além do Cristianismo, não seja de outro lado, não fale nenhuma lingua estrangeira como sua lingua materna, não seja gordo, não seja desempregado, não questione as autoridades.

 

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 Como se dar bem qualquer lugar

Ame de qualquer jeito, confie de qualquer jeito,  fassa arte de qualquer jeito, valorize os outro, seja gentil, fale alto, respeite os outros, proteja o ambiente, reconheça a dignidade da vida de outros, não julgues, ame a si mesmo, seja vulneravel, eduque-se, agradeça sempre, seja sempre jovial.

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RESUMO: abordaremos as questões divergentes entre o poder político e poder tradicional patentes nos textos que serão comparados, no contexto de experimentação de poder político sobre o poder tradicional, fenómeno que existe nos contos que serão objecto da nossa análise, as consequências e origens de aculturação de um povo representado nos textos que durante o desenvolvimento do trabalho, com subsídios da escola americana, subsidiará a posição tomada quanto a selecção desta escola com a comparação. Uma vez feita a comparação, as consequências da implementação dum tipo de poder ou governação suscita na morte dos governados, como consequência da substituição dum dos poderes, a tradicional pelo pol.

 

Palavras-chave: Poderes, aculturação, new criticism (novo criticismo).

 

 

Introdução

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Este trabalho visa a, na base da escola americana, fazer um estudo comparativo de dois contos: “Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?” de Mia Couto e “A morte pronunciada” de Rogério Manjate, uma vez que ambos carregam uma característica comum de ponto de vista de conteúdo: poder político e poder tradicional, dentre outros assuntos (morte, por exemplo) que ambos contos tem em comum. A área de literatura comparada tem mais uma abordagem comparativa que, querendo trazer as consequências da implementação do poder político num contexto social (no interior do texto) em que já governava o poder tradicional (uma espécie de aculturação), resulta na morte humana, representado nos textos em análise. Será em volta da escola americana que esses assuntos, do conteúdo textual, irão se debruçar. De salientar que a análise comparativa que será feita nos contos, não será feita com o contexto social que o conteúdo dos mesmos textos representam, ou seja, a análise restringirá nos textos e deles não sairá, salvo na apresentação das evidências que estão no texto, mas que são comparáveis com o contexto social da sociedade representada: falo da implementação de Estado-Nação numa sociedade cujas autoridades são tradicionais. Esses dois textos são, a primeira vista, diferentes um do outro, até porque são, todo texto é diferente do outro independentemente da semelhança entre um e outro aspecto seja do conteúdo seja da estrutura. O presente trabalho ira se basear no nível do conteúdo, apesar dos poucos subsídios textuais (os poucos que tem, são extraordinariamente subjectivos). Aculturação, esse é o termo que damos ao fenómeno que ambos textos nos apresentam como conteúdo. Chegou a independência, novas políticas também, novo padrão de vida exige do povo uma mudança recíproca que não coaduna com o velho padrão que estes devem abandonar em função dos brancos ou do padrão trazido pelos brancos, sim é um facto histórico e quem conhece a história Moçambicana pode reconhecer a historicidade desse facto, não é essa a relação que vamos fazer em forma de sair dos textos para a sociedade existente uma vez que, a nossa base de fundamentação ou de abordagem será a escola americana com a nova crítica por tanto é em volta desse assunto, dentre vários que os textos têm, que nos iremos focar.

 

 

Poder político versus Poder tradicional

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Tomando sempre por base o texto, mas não levando em conta suas relações com o contexto histórico-cultural, a Escola Americana que ganha força em 1958 com a proposta de Rene Wellek, teórico inspirado pelo new criticism, que propõe um estudo centralizado na obra e não em aspectos externos. Olhando no contexto dos dois textos em análise, temos tanto num como noutro organizações institucionais politicamente definidas, porem, com diferentes áreas: notariado e jurídico, isso, distingue um do outro e, os contextos do conteúdo textual, apesar de se distinguirem em vários outros aspectos. A primeira ligação que um leitor moçambicano ou de qualquer nação que conheça o poder tradicional de Moçambique relacionaria o conteúdo que os textos em analise carregam, assim, já tinham o dado histórico que sustentou o autor de cada um dos contos a compor, é disso que a nova crítica, o novo criticismo deixa de lado uma vez que é um assunto extra textual, não passa duma interpretação feita durante a leitura do mesmo texto. A Neocrítica, também chamada de Nova Crítica, é um movimento inicial da teoria literária surgido nos anos 20 nos Estados Unidos. Rompe com biografismo da crítica de então, mas rejeita também a análise literária a partir de contextos sociais ou culturais, portanto, o conteúdo textual que representa o contexto social patente em ambos contos, objectos da nossa análise, nunca se pode olhar para o seu conteúdo em função do que, um dia na história de um certo povo, aconteceu ou que acontece. Se um escritor escrevesse uma história cujo espaço e tempo é o mesmo que aconteceram os ataques da Renamo e as forças governamentais em Muchungue, só para dar um exemplo, mesmo se o conflito representado for a guerra, não se pode olhar para escritos desse escritor em função daqueles reais eventos. O Poder político representado nos textos em análise representando uma Dominação Legal onde o direito é criado e modificado através de um estatuto sancionado correctamente, tendo a burocracia como sendo o tipo mais puro desta dominação. Os princípios fundamentais da burocracia, segundo o Max Weber citado por Bianca Wild, são a Hierarquia Funcional, a Administração baseada em Documentos (o caso de Xikapeko no conto de Rogéro Manjate), a Demanda pela Aprendizagem Profissional, as Atribuições são oficializadas e há uma Exigência de todo o Rendimento do Profissional. A obediência se presta não à pessoa, em virtude de direito próprio, mas à regra, que se conhece competente para designar a quem e em que extensão se há-de obedecer. Weber classifica este tipo de dominação como sendo estável, uma vez que é baseada em normas que, como foi dito anteriormente, são criadas e modificadas através de um estatuto sancionado correctamente. Ou seja, o poder de autoridade é legalmente assegurado. Essa legalidade que os personagens do contos são submetidos após substituição do poder tradicional pelo político, são normas implementadas num universo em que outros agentes tradicionalmente definidos cujas leis e normas não aceitam ser misturados com outras. Este tipo de poder, segundo a wikipedia, é a possibilidade coercitiva que o estado possui para obrigar a fazer ou não fazer algo (a renomeação do personagem Xikapeko do conto: A Morte Pronunciada, para Lodiriki ou Rodrigues), tendo como objectivo o bem público: tirar uma vida humana seja usando a magia seja usando a ciência: revolver, nunca é tolerado nos termos duma lei regida no poder político, que usa a razão para julgar, o que acontece no conto de Mia Couto onde um personagem reivindica o julgamento do seu poder governamental: “Desculpa, senhor doutor: justiça só pode ser feita onde eu pertenço. Só eles sabem que, afinal, eu não conhecia que Carlota Gentina não tinha asas para voar.” P. 95 ACGNCDV, é a partir deste trecho textual que melhor alusão sobre a existência deste tipo de poder ou governação nos dá, (principalmente quando diz: “(…) só eles que, (…) ”) refere se aos agentes do poder tradicional, por tanto, temos no conteúdo textual, o poder tradicional ou dominação Tradicional (onde a autoridade é, pura e simplesmente, suportada pela existência de uma fidelidade tradicional); o governante é o patriarca (apesar de não ter, nos contos, um personagem representando o Velho venerando cercado de família numerosa, para representar a patriacalidade referida) ou senhor. O patriarcalismo é o tipo mais puro desta dominação. Presta-se obediência à pessoa por respeito, em virtude da tradição de uma dignidade pessoal que se julga sagrada. Todo o comando se prende intrinsecamente a normas tradicionais (não legais): “carlota Gentina era um pássaro, desses que perdem voz nos contraventos” p. 90, a veracidade desse facto não seria provado juridicamente uma vez que se trata duma personagem pertencente a outro padrão de civilização, cultura ou ainda, governação, por tanto, este personagem está passando por um momento de aculturação onde deixa o poder tradicional para no poder político, se adaptar ou resolver o seu problema através do doutor (agente do poder politico), esse advogado que o personagem dirige a sua historia, em forma de depoimento, por causa duma dominação política, está no padrão politico de justiça, não tradicional que defende e condena os seus actos sejam bons ou maus, por tanto, há aqui uma sobreposição duma cultura noutra. – Não faço ideia de que tipos de leis e normas teriam se os dois poderes se misturassem, o que não acontece no conteúdo textual de ambos textos onde, a reacção dessa sobreposição cultural acontece nos personagens tipo que, nos contos nos somos apresentado, são esses personagens que nos dão informações de que há uma sociedade diante de sua fusão com elementos culturais externos, por meio de dominação política e territorial, um outro tipo de poder, novas maneiras de julgar são implementadas, e a sociedade representada pelo personagem do Mia Couto: “Afinal, estou aqui na prisão (local onde se fica depois de um processo jurídico) porque me destinei prisioneiro. Nada, não foi ninguém que me queixou, farto de mim, me denunciei. Entreguei-me eu mesmo.” P. 86. É através da queixa e denúncias que este novo padrão de poder faz o seu processo jurídico em função a outro (o tradicional): “Só havia uma maneira de provar se Carlota Gentina, minha mulher, era ou não uma noii” p.88 suspeita tipicamente tradicional a justiça do poder político não tem ferramentas para esses tipos de casos, se estivesse a fazer uma relação para textual (o que a escola americana descarta), saindo do texto para o social, relacionávamos esta situação jurídica com a actual situação em Moçambique onde para além da PRM (para resolver problemas politicamente resolvíeis) temos e a METRAMO (para resolver problemas tradicionalmente resolvíeis): órgãos ou instituições de justiça. Mas não, tal comparação não nos compete fazer, tal comparação ou relação, não coaduna com, escolasticamente falando, o novo criticismo. Não, não sairemos, portanto, permanecendo do contexto textual: “O grito que ela deu, nunca ninguém ouviu. Não era som de gente, era grito de animal. Voz de hiena com certeza (…) essas mulheres que à noite transformam em animais e circulam no serviço da feitiçaria?” p. 87, este argumento, não coaduna com o poder politico, com a justiça de poder politico, não é a governação politica a qual se submete o personagem em questão que, em forma de julgamento, vai resolver esse caso, trata se, como já tinha dito, duma sobreposição duma política, cultura em cima doutra, uma espécie de aculturação, valores deixados para trás para assimilar outros que a nova política obriga para fazer parte dessa sociedade, o conto de Rojério Manjate aborda mais, na sua narrativa, essa nova maneira de lidar com as novas ou nova política que vigora num contexto social em que os governados são submetidos a novas leis e normas através de órgãos institucionais para a gestão populacional: “Durante o vice este menino era um anónimo para os papéis, indígena e mais nada. Mas no versa?, já era registado em completas nomenclaturas na conservatória da vila…” p. 31 AMP instituição regida pelo poder político, em quanto no texto de Mia Couto temos o Doutor representando uma instituição jurídica: tribunal, instituições politicamente designada para resolver conflitos protagonizados pelos governados. Era indígena porque não tinha papéis e, por isso, anónimo ou seja, não fazia parte daquela sociedade, não fazia parte daquela nação, mesmo estando no seu espaço de origem, espaço cujo poder de origem é tradicional: “Apresentaram-lhe assim à lua cheia, para esta ensinar-lhe o medo e a coragem, o sorriso e o voo (…) na presença da lua, nomearam-lhe pela primeira vez: Xikapeko!” p. 30, portanto esse acto não coaduna com o poder vigente nesse espaço ou a política ali patente, o nome não é dado aleatoriamente atribuindo a um antepassado que vai zelar pela vida desse novo ser mundano como o personagem de Rogério Manjate, ou através desse rito que é feito para dar nome ao menino. A consequência que resulta dessa sobreposição cultural é que a aculturação não tira totalmente a identidade social deste personagem, uma vez que o conflito entre os dois poderes resulta em: “Xikapeko morreu. (…) Lodiriki! Esse nome escurecia a lua do seu voo cada vez que o chamavam, até lhe sobrematar” p.33, morte, morte como desaparecimento físico desse personagem é resultado da rejeição dum padrão de cultura ou poder, o personagem não recusa a Europeização do seu nome, portanto são os poderes se confrontando causando efeitos drásticos para a sociedade submetida nessas políticas: “(…) e na sua cabeça a sentença já estava dita e sem interposição de recurso: homicídio voluntário por causa da civilização obrigatória” p. 34, no entanto, o novo padrão de poderes que essa sociedade representada no texto por este personagem (pai de Xikapeco), não resiste às consequências da aculturação.

 

Conclusão

 

Após um estudo comparativo entre os contos de Mia Couto e Rogério Manjate, numa abordagem americana (novo criticismo), não saindo do universo textual, constatamos que tanto num como noutro conto, predomina um poder cujos governados pertencem um outro tipo de poder: o tradicional. A aculturação que os personagens em ambos textos se submetem tem como causas morte, por consequência dessa sobreposição política. Os textos comparados tem muitos aspectos, do ponto de vista do conteúdo que podem ser relacionados com o contexto social que a história dispõe mas, uma vez que a escola América restringe o estudo comparativo apenas no texto sem recorrer a esses subsídios históricos, analisamos os dois contos tendo em conta o conteúdo abordado no interior da diegese, um pouco daquilo que representa e não aquilo que aconteceu no contexto social historicamente justificável, falo dos conflitos governamentais patentes nos dois textos.

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Crítica literária

por Marcos Bila, em 09.11.16

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Termo designativo dos textos que se preocupam em discutir o discurso literário ou opinião valorativa sobre as obras literárias. Costuma-se atribuir à crítica o papel de avaliar ou apreciar os textos considerados dignos de serem lidos, bem como seus impactos e efeitos sobre o leitor. Caberia à crítica literária, na opinião de Antoine Compagnon, em O demônio da teoria, acentuar a experiência da leitura, isto é, descrever, interpretar, avaliar, julgar, proceder “por simpatia (ou antipatia), por identificação ou projeção: seu lugar é o salão, do qual a imprensa é a metamorfose, não a universidade; sua primeira forma é a conversação”. Sabe-se que Graciliano Ramos, além de romancista, cronista, contista, dentre outras competências como escritor, foi um crítico literário (inclusive dele mesmo) reconhecidamente exigente, no que tange o discurso ficcional. Em Memórias do cárcere, ele nos diz que: “certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”. Nesse sentido, é preciso discutir a opinião corrente de bom ou ruim, o que é considerado pela crítica como objeto literário de valor ou não. Assim, o interesse pela noção de “bom gosto” da obra literária está sempre balizada por uma comunidade interpretativa legitimada pelas afirmações da própria crítica, a saber, uma comunidade ao mesmo tempo canonizada e canonizante. A crítica é, assim, circundada por esquemas ideológicos e efeitos de sentido que não são naturais do objeto que ela estuda e avalia, mas pelas convenções sociais, de grupo ou grupos de interesses. A tarefa do crítico é sempre agir dentro de um campo cultural específico, visando a desconstruí-lo, transformá-lo ou mesmo ratificá-lo. (Por: Erick da Silva Bernardes).

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O olhar sobre a outra procura, inconscientemente, referências do seu mundo para uma mais profunda identificação e até melhor proveito por parte do leitor. Ou haverá uma certa necessidade de encontrar no espaço estrangeiro marcas do próprio espaço do autor? Tal espaço não há se não uma grande visão geopolítica e maior habilidade diplomática, esses sim são as marcas e valores que os viajantes tinham como principais armas para menosprezar e ridicularizar o outro nos seus escritos. Cabral, com destino à Índia, e no caminho avistou a terra de Vera Crus, assim, começa o processo de achamento de Brasil e, com efeito, a narrativa de Pero Vás de caminha e outros cronistas quinhentistas, que descreveram aquelas terras e suas gentes “Aí, nessa terra de grande beleza e muitas riquezas, contactou a expedição com um povo simpático e acolhedor, mas vivendo num estado civilizacional bastante atrasado” o atraso civilizacional a que se faz alusão é feita em função dos valores ocidentais: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinais que pousassem os arcos. E eles os pousaram.” Para os portugueses, aquele local, não passava de fonte de riqueza, e o facto de eles terem sido compreensíveis perante eles, a simpatia, a hospitalidade, fez com que aquela gente metropolitana concluísse que eles eram incivilizados e disso, futuramente, tiraram proveito. Ainda na carta de achamento de Brasil: “Trazia este velho o beiço tão furado, que lhe caberia pelo furo um grande dedo polegar, e metida nele uma pedra verde, ruim, que cerrava por fora esse buraco. O Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela direito ao Capitão, para lha meter na boca.” PVC Como podemos ver, nessa obra, o outro aparece como sendo um animal que pode ser domesticado, apesar de ter-se mostrado muito hospitaleiro com o estrangeiro. Essas viagens que buscavam relacoes com outros povos sempre resultam na dominacao do outro considerado nao civilizado, pelo viajante. O mesmo acontece na obra Moby Dick Narrado por Ismael: “Se a primeira visão de um indivíduo tão bizarro como Queequeg circulando no meio de uma sociedade civilizada me tinha deixado estupefacto, a minha estupefacção aumentou quando, em pleno dia, fiz a minha primeira surtida nas rua de New Bedford”. Tanto nesta, como na narrativa de pêro Vaz, há uma ideia de se menosprezar o outro em função do nível civilizacional que estes têm, Queequeb é nome dum personagem de raça negra que durante a viagem à caça da baleia branca vai ser o seu parceiro, para além de outros tripulantes, mas este personagem, em particular, vai ser aquele que o narrador/personagem Ismael vai descrever detalhadamente por causa dos seus hábitos e costumes que são muito diferentes dos dele: “Sentei-me a observa-lo com grande interesse. Embora fosse um selvagem tatuado e de rosto hediondo, havia no seu comportamento qualquer coisa de simpático. A alma não se pode ocultar. Parecia-me desvendar, através das medonhas tatuagens, os vestígios de um coração simples e honestos, e nos seus olhos largos e profundos de um negro ousado e fogoso, pareciam flutuar as promessas de um espírito capaz de enfrentar um milagre de demónios” Temos aqui mais uma evidência de como estes dois viajantes que, apesar de estarem embarcados no mesmo navio, pertencem a povos distintos e, Ismael, estando na privilegiada posição daquele que narra, vai nos dar o seu ponto de vista, a sua perspectiva desse outro. É curioso que tal como em pêro Vaz temos a simpatia desses dois povos. Eis um dos valores do Ismael que em função deles vai influenciar o seu olhar sobre o outro e os valores influenciando a observação “Eu era um bom cristão; nascido e educado no ceio da infalível igreja presbiteriana. Como poderia unir-me àquele idólatra selvagem na adoração de um manipanso de madeira?” M. D. assim sendo, eis a imagem do outro: “Queequeg era um nativo de Rokovoko, uma ilha muito remota do sudoeste que, como todas as ilhas autênticas, não se encontra assinalada em nenhum mapa.” Fazendo o cruzamento directo entre essas duas obras podemos perceber que ja como foi dito, o dominador é sempre aquele que se acha superior e com uma civilizacao diferente do outro com quem mantem o contacto No caso de Ngamula, temos um caso diferente, primeiro porque trata-se dum narrador na terceira pessoa que descreve a partir do olhar do personagem, “os olhos forasteiros do Nghamula a sede da vila de Maxixe era um lugar aprazível, arejado e com paisagens como nunca vira. A proximidade do mar, mesmo de se lhe pegar à mão, o ondular daquelas barcaças frágeis a sulcar as águas da baia atraiam a sua atenção e fascinação (…) decifrou nos semblantes carregados dos transeuntes a angústia e os sobressaltos causados pela guerra; (…) preso de espanto, por ali demorou-se a testemunhar o que parecia ser um dos maiores absurdos que já presenciara. Magalas de braços musculosos e corpos vigorosos transportavam às costas senhoras e cavalheiros a troca de umas moedas.” Nghamula O primeiro contacto com o outro que Nghamula teve foi com a paisagem da vila de Maxixe que o encantou como nunca havia se encantado, já o segundo está precisamente ligado à força brutal que os homens da vila tinham, visível quando esses carregavam os seus clientes nas costas em troca de dinheiro. Ele em toda a sua vida nunca havia presenciado tal absurdo, daí que olha para os “ Magalas” como o outro. O contacto com o outro em Nghamula, está também presente durante a sua formação como militar, quando levado pela raiva de ver um seu companheiro a ser maltratado pelos comandantes estrangeiros, acaba por atacar os seus superiores ate a morte. Esta relação entre soldados e comandantes estrangeiros era vista como um desafio, pois os segundos castigavam os primeiros por se acharem superiores. Essas três obras cruzadas entre si até agora nos trazem a visão que o estrangeiro tem sobre o nativo e a fúria com que se encaram. Na obra Terra Sonambula o contacto com o outro dá se quando Kindzu cruza o caminho de Surengra, um indiano comerciante com quem troca uma amizade faternal, não sendo este episódio isolado pois encontramos entre Tuahir e Muiadinga um encontro de gerações que se repete na obra A Estepe onde encontramos um grupo de quatro viajantes, formado por um padre, um comerciante, um cocheiro e um rapaz de nome Iegoruchka que a pedido da mãe segue na comitiva para poder estudar na vila onde o seu tio fazia a sua venda. A hostilidade com que encara os seus novos parentes pode ser vista como o contacto com outro, embora façam parte da mesma tradição. O outro não é visto somente como aquele que possui uma cultura diferente nestas obras mais também como um desconhecido. Em As Minas de Salomão estamos perante um narrador que, apesar de ser um residente de África, Durban, e já ter tido muitos contactos com os diferentes povos negros da região onde caçava elefantes, este quando chega na terra dos Cacuanas e ao serem apontados pelas azagaias com aqueles guerreiros: “Só quem conhece selvagens e a mobilidade daquelas imaginações infantis pode compreender como subitamente, em cada um deles, ao desejo de nos matar ia já sucedendo o impulso de nos adorar…” portanto, a experiencia que este narrador/personagem, vai facilitar lhes a estadia naquelas terras alheias e, aproveitar da ingenuidade daquelas gentes para saquearem as pedras que reluzem, e, à moda das crónicas quinhentistas, não faltou a descrição, pormenorizado do que vê e lhe chama atenção: “Alguns deles traziam aos ombros peles de leopardo, e na cabeça umas coroas de altas penas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em frente do bando, um rapaz de uns dezassete anos conservava ainda o braço erguido e o corpo inclinado, na atitude graciosa de uma estátua que eu vira no cabo, um efebo grego que lança um dardo.” Nas terras dos Cacuanas, destino que os viajantes rumavam, tinha uma velha senhora que, em lugar de feiticeira. “E sem mais, a hedionda criatura mergulhou no corredor tenebroso, erguendo ao alto a pálida lâmpada” essa forma de olhar o outro não é, de algum modo, bela nem amigável, a mulher de que se trata era a única conselheira do rei. A presenca de um personagem/narrador que ja teve varios contactos com outros povos faz essa obra ganhar um tom diferente das outras, ora vejamos, o contacto com o outro nas obras ja apresentadas acontece pela primeira vez e gerando confrontos inesperados, no caso desta última obra em análise, ate agora, acontece o contrário. Ismael conhece muito bem os outros povos, sem com isso deixar de os considerar como primitivos e animais ferozes e deixar de se aproveitar da ingenuidade deles.

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INTRODUÇÃO

            Pretendemos fazer uma análise comprativa das obras: Memória Póstuma de Bras Cubas (MPDBC) de Machado de Assis (M. De Assis) e A Varanda do Frangipani (AVDF)de Mia Couto (MC).Será com essas abreviações que iremos tratar as duas obras ao longo do trabalho. Iremos debruçar sobre os aspectos ou elos de aproximação ou distanciamento de ponto de vista do narrador póstumo entre as duas obras.

Narrador póstumo em: Machado de Assis e Mia Couto

            Narrador póstumo, termo que adecua ao fenómeno das duas obras em análise trás nos diferentes universos de diferentes formas. Compreende-se por narrativa póstuma o relato de uma história contada por uma voz postmortem (depois da morte) que, livre da prisão do antigo corpo, pode se concentrar na sua própria consciência. (BEZERRA 2012) Então narrador póstumo seria uma consciência cuja ligação com o respectivo corpo humano está desconectada. Em forma duma análise crítico-interpretativa: O romance de Mia Couto é narrado pelo carpinteiro Ermelindo Mucanga, que morreu nas vésperas da independência, quando trabalhava nas obras de restauro da Fortalezade São Nicolau, onde atualmente (no universo temporal da historia) funciona um asilo para velhos. Esse personagem é o que os nativos chamamde “xipoco”, um fantasma que vive numa cova sob a árvore de frangipani, na varanda da fortaleza. querem transformar Mucanga em herói nacional, mas ele não concorda: “Certo era que eu não tinha apetência para herói póstumo. A condecoração devia ser evitada, custasse os olhos e a cara.” (MC, p. 12). Para tanto,seria necessário que ele “remorresse”. Este é o narrador que se apresenta como não pertecendo ao mundo da narrativa que vai narrar: “era a primeira vez que ele iria sair da morte. Por estreada vez iria escutar, sem o filtro da terra, as humanas vozes do asilo” (MC. p.18) é no depoimento deste narrador que a ideia de narrador não humano nos fica, a ideia de ser um narrador póstumo pois este se manifesta como não pertecente ao universo diegético da história por ele narrada: “nunca fui homem de ideias mas não sou masto de enrolar a língua” essa é a justificativa deste narrador incomum, justificativa de estar a desempenhar um papel não comum daqueles que já não pertencem o mundo dos que vivem. Os capítulos do livro em que o póstumo narrador toma a palavra estão sequêncialmente titulados: “estreia nos viventes”; “segundo dia nos viventes” e assim vai continuando a numeração lógica até o fim.

Já o Brás Cubas, narrador de Machado de Assis, narra os factos que constituiram a sua existencia com destaque para: a infânçia; caso amoroso com Marcela; a viagem de estudos na Europa; romance adúlterro com Virgília (mulher do político Lobo Neves); o encontro com Quincas Borba e a filosofia de humanitismo; a criação de emplásto (remédio que curraria todos males) e finalmente a morte. Portanto são memórias que este narrador póstumo narra e a grande abertura em forma de prólogo: “Ao Verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosas lembranças estas memórias póstumas” narrado por um “defunto-autor”, direcionado ao leitor em tom sarcástico. O personagem Brás Cubas, que não tem nenhum tipo de compromisso com os valores do mundo, mostrou no romance o que verdadeiramente pensa sobre as pessoas, já que não pertencia mais àquele mundo, não precisava mais delas. Este narrador personagem, Brás Cubas comenta sobre os seus pensamentos, além de criticar a sociedade do Rio de Janeiro da época e tudo que há nela: a escravidão, a divisão das classes sociais, com indiferença, ironia e pessimismo. "Neste romance de Machado de Assis, autêntica obra-prima pela finura psicológica, pela serena inteligência das coisas e pela justeza da expressão, ora travessa, irônica, maliciosa, ora de concisa gravidade, o narrador fictício, Brás Cubas, evoca e repensa de além-túmulo, sem ilusões nem respeitos terrenos, a vida conclusa existência oca decelibatário rico." Jacinto do Prado Coelho.

O que aconte no romance de Mia Couto é diferente, uma vez que não é uma narrativa de memórias que o narrador fantasma nos narra este apenas se apossa do corpo do policial Izidine Naíta para investigar um crime que movimenta a narrativa, ou seja, a trama ou intriga do livro.

Em A Varanda do Frangipani, sabemos desde o início quem é o possuidor e o possuído ou como indica o narrador, hospedeiro e hospedado. Hermelindo ocupa uma parte da alma de Izidine, ou, dito de outra forma, Hermelindo toma apodera se do espaço da alma do agente, silencia-a e fica no comando do corpo, por vezes tem acesso às memória do agente: “vai com ele, vai nele, vai ele. Fala com quem ele fala. Deseja quem ele deseja. Sonha quem ele sonha” Entretanto, durante a narrativa, o narrador fantasma rememora somente, a não ser no início do romance em que cita passagens de seu período vivente. Além disso, a história é entrecortada por depoimentos dos velhos e das testemunhas, que habitam o asilo onde ocorreu o crime que Izidine investiga, estes velhos que se transformam em narradores daquilo que num lapso de tempo relativamente breve lhes sucedeu, eles vão contando estórias num plano ou foco diferente daquele que o narrador (encarnado no agente Izidine) vem contando, até porque no depoimento de cada velho tem um capitulo que antecede outro que torna nos de volta ao universo presente, universo de asilo, universo que rodeia o agente Izidime.

Em Machado de Assis, estamos perante uma narração ulterior (o narrador é colocado num universo diegético que os eventos que nos narra já conhece na totalidade) “Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias”. (P 98) por tanto estamos perante um narrador que apenas repete a sua vida, em forma de lembrança, relato das suas próprias memórias, nenhum evento presente acontece para além da sepultura onde o corpo jaz enquanto o espirito se diverte narrando o passado daquele que jaz. Não há dúvida de que, de ponto de vista do leitor, o fim do Brás Cubas será aquele que nos é narrada logo no início do livro, apenas lemos a obra para saber do seu passado e o que sucedera aquele fim fúnebre. Todos os eventos narrados, em Machado de Assis, estão no passado.

Em contrapartida este mesmo leitor não irá interpretar o mesmo ao ler AVDF onde, para além de contar eventos que acontecem no presente por um narrador morto (Ermelindo Mucanga) que, no canto dum dos personagens, nos narra a história dos viventes, entre viventes. Há uma segunda morte que o leitor desconhece uma vez que é de outrem e não do mesmo póstumo-narrador, apesar de se saber através do mesmo narrador (diferente de Brás Cubas que já no caixão, inicia a sua memórias) que essa morte aconteceria em seis dias. É no presente que os eventos importantes acontecem não no passado como em MPDBC.

 

Estatuto do narrador

O outro elo de distanciamento entre esses dois livros é o estatuto do narrador, em quanto em AVDF, é homodiegético, o narrador “Xipoco” veicula informações advindas da sua experiencia diegética tendo vivido a história mas que depois retirou se para de longe contar sem dela participar, apesar de, em AVDF, haver um vai e vem desse narrador o que pode confundir o leitor levando o ao mau ponto de que o narrador é o agente Izidine, personagem pela qual o narrador “Xipoco” encarnou para remorrer, desta maneira, boa parte da história que fica aqui contada é do agente e não do narrador póstumo, até porque este não tem memórias do seu passado, salvo aqueles momentos que as vivencias do agente lhe trazem algumas memórias soltas relacionadas com aquele momento que o agente estava passando: “Na cova eu não tinha acesso à memoria. Perdera a capacidade de sonhar. Agora, alojado num vivente…” (Mia Couto, p 120).

Em MPDBC temos um narrador Autodiegético uma vez que este depois de morto, o Brás Cubas agora um defunto, decide narrar a história e reviver (a ideia de reviver aqui vem para mostrar o oposto de remorrer em AVDF) os pontos mais importantes da sua vida, por tanto, o narrador Autodiegético geralmente relata as suas própria experiencias como personagem central da mesma história, o ponto de vista do narrador passa pela personagem principal, Esse narrador possui particularidades que irão dominar a narrativa, essa é situação em MPDBC, todos os eventos narrados aconteceram no passado e o mesmo narrador, ou seja, narrador-personagem póstumo, está presente entre os eventos narrados, os eventos que ele nos narra giram em torno dele, eventos pelos quais, para além de fazer parte, também desempenha acções. Brás Cubas, narrador e personagem principal da sua história, que é constituído de flagelos e delícias, de glória e miséria, de desejos e frustrações. Serão esses estados antagônicos que caracterizarão o narrador-personagem ao longo do romance.

Em contra partida em AVDF temos o narrador que, do canto do corpo do agente Izidine, nos narra eventos que em volta do agente ocorrem sem desempenhar nenhuma acção palpável no universo narrativo dos viventes o que o torna Homodiegético: “Izidime tinha um plano: entrevistraia em cada noite, um dos velhos sobreviventes. De dia procederia a investigação no terreno. Depois de jantar, se sentaria junto à fogueira e escutaria o testemunho de cada um. Na manhã seguinte...” (MC p.25) uma vez encarnado no agente o narrador sabe tudo sobre o agente, já no universo sepulcral, este narrador pode assumir o estatuto Autodiegético, uma vez que tem o pangolim ao seu lado: “O que queria lembrar, muito-muito, eram as mulheres que amei, confessei esse desejo ao pangolim.” (MC 19) Considerando que o sonho deste morto é que suscita um enorme enredo e não temos no universo real aquele leque de personagens que habitam o asilo, ou se houverem acções que desempenharem não são reais então estaríamos perante um narrador Autodiegético uma vez que este dialoga com o pangolim no além e foi a partir do dialogo entre o morto e o pangolim que surgiu a intriga entre os vivos no asilo, e a necessidade de este mesmo morto integrasse entre os vivos para resolver o enigma e partilhar a intriga.

 

Narrador narratário

A relação entre o Narrador e narratário é tratada de difententes maneiras nas duas obras, o narrador do Machado de Assis é explícito: “Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência política, e do meu primeiro cativeiro pessoal.” (M. de Assis P. 72) o Vamos que está no plural, mostra que este narrador tem ateção de que no seu percurso narrativa não está sozinho, tem o narratário acompanhando os seus passos. Este narrador, as vezes faz nos suger ao leitor que volte aos capítulos anteriores facto que não temos em AVDF, não que alguns capítulos não sugiram ao narratário que volte aos capítulos anteriores mas que, não é pela sugestão do narrador é pelo próprio prazer ou nessecidade de perceber o ponto narrativo que este estiver, desse leitor que estiver lendo. Este narrador não sugere como o de Machado de Assis sugere “Não era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo…” p. 112 não se cansa de nos alertar sempre que um capítulo necessita de subsídios doutros capítulos para perceber o conteúdo geral daquele que estivermos lendo (o longo intevalo entre as páginas dos dois trechos acima citados mostram o ponto que o narratário estava e para onde devia voltar), mesmo quando é algo que este disse noutro mas que quer, por qualquer relação que esses capítulos possam ter, repetir a mesma coisa que dissera naquele “Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo XIV, que Marcela morria de amores pelo Xavier.” P. 77-78 talvez isso justifique o facto de alguns capítulos de Machado de Assis (Brás Cubas) serem curtos, apesar do número elevado dos mesmos. O facto de em alguns capítulos evocarem outros, fazendo uma comunicação entre os mesmos de modo que, para além de economizar o tempo e papel, manter a coerência do próprio enredo fixo e objectivo num só ponto que não pode ter outro fim se não a morte do narrador-personagem (o que o transforma em Narrador póstumo) portanto este narrador tem uma comunicação constante com o seu narratário: este destinatário intratextual do discurso narrativo da história narrada explicitamente “Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto.” (P. 93) é como se o narrador estivesse diante do seu leitor ou que aquele tem certeza absoluta que a história irá parar nas mãos de qualquer um e imaginasse-lhe o estatuto social, psicológico do mesmo, como se adivinhasse o humor do leitor. “Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor?” P. 124. É essa relação intimista e explícita que o narrador póstumo tem com o narratário (entidade fictícia, um «ser de papel» com existência puramente textual, dependendo por outro «ser de papel») e faz com que este, de vez em quando se lembre de que não está só, o narrador está sempre ali e faz questão de chamá-lo sempre ao longo do texto.

Na obra de Mia Couto não há menor menção do narratário, nesta, como em inúmeras obras o narratário é, com frequência, um sujeito não explicitamente mencionado o que o torna narratário implícito. “Consultei ao pangolim, meu animal de estimação. Há alguém que desconheça os poderes deste bicho de escamas, o nosso halakavuma.” (Mia Couto, p.15) em confronto com o narratário não mencionado ou implicitamente mencionado, o leitor coloca-se numa posição complicada se não conhecer, neste caso, o significado do termo Halakavuma. Pode ficar aquém dos conhecimentos atribuídos ao narratário, salvo se se tratar de um leitor local, um leitor que pertence ao espaço impírico representado na diegese, onde se desenrola a narrativa.

Já o narrador do Machado pode ser perceptível em qualquer canto de mundo, qualquer leitor do mundo sente se envolvido com o narrador Machadiano, é como se este estivesse no papel: “…Porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...” (Machado de Assis, P. 155) a mesma sessação é sentida no livro de Mia Couto, os velhos de asilo contavam uma séria de estórias que apesar de serem coerente ao desfecho das mesmas, só diziam o que agente Izidime não queria saber, o que era a sua pesquisa, só no fim quando até o leitor, embalado nas histórias fantásticas dos mesmos velhos, se esquece da intriga e o foco do depoimento (A morte de director de asilo) transmitindo dessa maneira informações que estão além do objectivo do agente e o leitor acaba ficando a par dessas informações que os velhos facultam, levando mais tempo para o ponto culminante da narrativa (achar o assassino do director de Asilo).

O narrador de Machado de Assis nega ser uma história romântica a que conta “Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não.” P 98 e desta maneira cabe ao leitor, aceitar ou negar se, de acordo com o conteúdo que está ao longo da diegese é ou não característico ao romanesco, mesmo que o próprio Brás Cubas diga de antemão não tratar se de uma história romanesca e ainda acrescenta “Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico. A realidade pura é que…” P. 204 mais uma vez caberá ao leitor, uma vez que este é o elo importante nessa categoria de atribuir sentidos aos textos.

 

 

CONCLUSÃO

            Concluímos que as obra de Mia Couto e Machado de assis tem um narrador póstumo nas suas obras que se manifesta de diferentes maneiras em quanto em M. De Assis o narrador é Autodiegético em MC o narrador varia de Auto a Homodiegético, o que permitiu que algumas diferenças e semelhanças tornaram a obra do mesmo autor similar em alguns aspectos mesmo sendo poucas. Apesar de o narrador ser da mesma origem, póstumo, nas duas obras, tem rumos diferentes uma vez que um narra eventos do passado e o outro narra eventos do presente cujo futuro apesar de traçado não termina como os leitores esperavam. A relação narradodor narratário é explícita na obra de M. De Assis e em MC, implícita.

 

 

BIBLIÓGRAFIA

ASSIS, Machade de. Memórias Póstuma de Brás Cubas. 1ª Edição. Lisboa, Universitária editora, 1997

BEZERRA, Paulo. O Universo de Bobók. DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Bobók. São Paulo, Editora

34, 2012.

COUTO, Mia. A Varanda do Frangipani, 1ª edição. Maputo: Ndjira, 1996.

REIS, Carlos e LOPES, A,C,M. Dicionário da Narratologia. 7ª Edição. Porto, Almedina,2000

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica (Debates, 98). Trad. Maria Clara Correa Castello. São Paulo: Perspectiva, 1975.

 

 

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